Cada um pode preencher o vazio a sua maneira. Para o observador acostumado a ter uma obra “acabada” diante de si pode ser uma experiência de estranheza estar dentro da obra de arte. Uns podem ser barrados pelos elásticos, outros, quem sabe, ultrapassarão sem pudores esta barreira e os mais ousados poderão até se arriscar a utilizar a cadeira. Essa é a tônica que promete emanar da instalação Labirinto para o olhar, do artista plástico Almandrade, que ficará exposta até 4 de janeiro de 2009, na Galeria do Conselho, anexo ao palácio da Aclamação, Campo Grande.
Os visitantes encontrarão nada mais que o essencial. Em meio às paredes brancas são estendidos elásticos vermelhos e no centro uma cadeira de veraneio que no lugar do assento de lona apresenta também um elástico vermelho. Cada elemento tem o seu lugar bem definido que dialoga com o espaço e a luz. Essa última, teatraliza a cadeira e dá continuidade as formas retilíneas dos elásticos tencionados. Conceito e geometria, planejamento e execução percorridos com coerência precisa, característica do autor.
Labirinto para o olhar se relaciona com a construção nova que se dá a cada passo, a cada ângulo que se observa a disposição dos elementos de uma instalação. Pensamentos preenchem o estático vazio silencioso, recortado pela tensão dos elásticos, com tentativas de desvendar seu significado, de sair deste labirinto que por falta de uma obra referencial deixa o olhar do observador perdido…
O vazio, tanto como premissa na composição objeto-espaço-observador quanto pela ausência de elementos, faz parte do labirinto como uma ausência que carrega uma aura arqueológica e que absolutamente não é saudosista. Contesta não só a arte, mas sua embalagem, o invólucro proposto como ideal: o cubo branco, onde o silencio e o distanciamento são instituídos. Para Almandrade “Nesse espaço onde se cumpre religiosamente o ritual de olhar, o espectador se defronta com um pedaço de deserto, paredes brancas, quase nada para ver, somente as linhas definidas pelo elástico estendido, reflete”. O artista ainda completa “É permitido o devaneio, e ele dá sentido àquilo que vê”.
Apoiada pela Fundação cultural do Estado através do edital “Portas abertas para as Artes Visuais”, a obra não poderia dizer mais de seu criador. Artista plástico e poeta, formado em arquitetura, ele se mostra um artista versátil dentro de sua proposta. Nos seus 34 anos de carreira nas artes visuais caminhou pelo desenho, pintura, escultura, instalações e poesia. Transita entre a bi e a tridimensionalidade, entre a imagem e a palavra de forma fluida. A metamorfose de uma para outra às vezes não se completa e mesmo observando duas formas de expressão distintas elas parecem falar a mesma língua.
Apesar de percorrer o figurativo no início da carreira, fincou sua identidade pautada na arte conceitual, nos concretistas, neo-concretistas e minimalistas. Sempre os poucos elementos e o aspecto enxuto que vai direto ao ponto vão imperar em suas criações. “As minhas pinturas e esculturas são pensadas e executadas dentro de um mesmo princípio. A realização de uma única coisa ou criar, com o mínimo, um mundo” comenta em seu último livro Escritos sobre arte: arte, cidade e política cultural, lançado pela editora Cispoesia.
Almandrade, provavelmente por influência de sua formação em arquitetura, demonstra preocupação com a articulação entre objeto, espaço e cidade. Constrói seu imaginário criando objetos e situações que dialogam com a cidade, posto que é seu avesso deslocado no tempo e espaço. Sua racionalidade contrasta com a desordem, o caos, o excesso de informações e os modismos de uma sociedade saturada de tudo. Sua assepsia contrasta com as imagens da sociedade midiática e se distancia da colorida e construída baianidade. No mínimo um artista singular e constantemente inovador no cenário cultural da cidade de Salvador.
Cildo é um artísta de carreira longa, quase sempre presente. Desde a década de 60 até hoje Cildo cria obras para incomodados, para aqueles que muitas vezes se sentem desconfortáveis com certas questões sobre o mundo. Um drama que sempre muito bem apresenta esse artísta através de suas composições que se alimentam de paradigmas, deglutindo matérias que são símbolos, signos. Uma arte pensada e que exige do observador um olhar com o mínimo de treinamento para que se possa tentar uma aproximação com a dúvida, com a mensagem ou com a reflexão.
O Palacio da Aclamação foi o palco escolhido para receber a amostra chamada de No Território Vasto: Cildo Meireles e Convidados. Aqui em Salvador a iniciativa da UNE não foi muito comentada. Na amostra podemos ver algumas de suas obras mais famosas como Inserções em circuitos ideológicos e cruzeiro do Sul.
O artista tem como uma das últimas grandes chamadas de seu vasto currículo uma exposição na TATEM MODERN, uma das galeria de arte mais visitadas do mundo. No youtube a instituição divulga uma pequena entrevista e mostra a atividade que desenvolveu para aproximar obra e público.
O setor educativo do MAM-Bahia vem promovendo diversos encontros (verdadeiros acontecimentos) entre artistas e seu público. Terça-feira pela primeira vez participei de um deles.: Adalberto Alves, Liane Heckert e Nicolas Soares falaram um pouco de suas carreiras e de seus trabalhos apresentados no 15º Salão. Uma iniciativa louvável tendo em vista a áurea de incompreensível e hermética que assombra a obra de arte moderna.
Adalberto Alves eu conheci através da Exposição RAID na Caixa Cultural. Ele trás de volta do desenho (se é que a técnica foi algum dia para poder ter voltado) rabiscado que decalca na parede com papel carbono fazendo uma arte que fica impregnada nas paredes da galeria e que está fadada a morrer no final da exibição. A impressão que me da os trabalhos dele é que um menino andou rabiscando a ultima página do caderno e insatisfeito com o pequeno espaço acabou extrapolando o suporte. Suas formas brincam com os corpo humanos. O que somos nós se não malabaristas nesse mundo desequilibrado? Estamos sempre a ponto de cair no poço da insanidade.
A dupla Liane Heckert e Nicolas Soares foram os responsáveis pela instalação “Insustentável” que articula um banco de vidro e uma fotografia fugaz de um casal. A obra é um convite a reflexão sobre relacionamentos, sobre a fragilidade das relações e brinca com a estética cinematográfica, com o vouyerismo. Não conhecia o trabalho dos dois e achei bastante interessante o que foi apresentado. É muito bom ver gente nova fazendo arte com substância. Os trabalhos e seus manking off podem ser visto no blog da dupla.
Levava comigo meus pupilos (e de Rene) do projeto “Museu e Escola: Parceiros no processo de preservação da memória”. Eles se divertiram muito especulando sobre a as obras e as vezes interagindo com elas, o que mostra mais ainda que a arte contemporânea não é esse bicho de sete cabeças. Assistiram atentos as apresentações dos artistas, ficaram meio tímidos para participar do debate, mas no final bateram um papo com exclusivo com Adalberto Alves. A visita foi facilitada pela instituição que alem de disponibilizar uma van para levar e trazer os alunos desenvolveu uma atividade lúdica na escola um dia antes da visita.
Os artistas falaram um pouco das mensagens que tentaram passar, mas sempre deixando claro que a comunicação é aberta e que a obra se completa no público. Para mim é justamente isso que torna a arte contemporânea tão intrigante e tão “nossa”, tão “do nosso tempo”. Vivemos tempos de incerteza onde tudo está fadado ao fim. Fala-se em fim da história, fim das barreiras geográficas, fim da arte, fim dos tempos. O mundo está pouco conclusivo para abrigar uma arte conclusiva.
Na sua história a arte o tempo todo parece ter oscilado entre o clássico e o romântico, entre o racional e o irracional, entre razão e emoção, divididos em ciclos definidos. Há quem defenda que chegamos a um ponto em que a arte apresenta um certo hibridismo que não permite que esse ciclo se feche com clareza. No contexto do Décimo Quinto Salão eu fico com o romântico. A arte contemporânea quase sempre me deixa escolher.